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20
Set19

Um lugar seguro

LAC

Viajamos todos apertados no barco 
e ninguém deseja sair do seu lugar.
Ninguém quer ser devorado pelo medo,
e medo era tudo
o que o mundo que deixámos
para trás
tinha para nos dar.
«A minha história precisa de ser contada»,
diz um dos passageiros,
incapaz de conter o assombro que o queima.
Incapaz de traduzir, igualmente,
o silêncio que o rodeia.
Ninguém quer saber da sua história,
por mais única ou angustiante que seja.
Ninguém quer saber de nenhuma história
que distinga cada um dos demais.
Já todos conhecem demasiadas histórias 
que tinham urgência de ser contadas.
Histórias que, no final, não ajudaram
nem iluminaram uma só saída.

Partir.
É o único sentido que o futuro tem
para quem se recusa a desistir dele.
Mesmo que se agarre à vida
com o arrepio da impotência.

Resistir.
Para além da razão que a todos humilha.
Que a todos condena a ansiar
por um horizonte desconhecido.

Sobreviver.
É tudo o que se aprende
com a proximidade da morte.
E não há nada como a dor e a morte
para aprender a observar o mundo.

Eu senti-me aliviado quando descobri
que no barco 
ainda havia espaço para mim.
Tudo o que me interessava
era ter um lugar seguro
e não ser identificado pelo que passei.
O mundo não precisa de mais paz
do que a que no meio
de tanta gente desconhecida encontrei.
O mundo não carece de mais olhares
do que aqueles que me rodeiam em silêncio.

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